Vamos catar fusquinha?
Há pouco tempo estive em
Brasília visitando alguns familiares e cumpri mais uma vez o roteiro turístico
da cidade, com direito a fotos e paradas nos lugares
históricos.
Passadas algumas horas de atividade num passeio sem muita motivação, meu sobrinho propôs à irmã:
- Clara, vamos catar Fusquinha?
Arregalei os olhos e com o carioquês que me é peculiar, indaguei:
- Cuméquié? Que negócio é esse de catar Fusquinha?!
Fui chamada de tonta pela sobrinha de nove anos. Não que ela
estivesse me ofendendo, mas para o brasiliense, chamar alguém dessa forma é
comum. Vai ver que essa mania começou no Palácio do Planalto, já que para eles,
provavelmente, o resto do Brasil seja mesmo.
- Tia, deixa de se tonta! A senhora nunca brincou de catar Fusquinha?
- Tia, deixa de se tonta! A senhora nunca brincou de catar Fusquinha?
Senti-me como um urso que tivesse hibernado pelos últimos trinta anos e não soubesse de nada. Disse que não e logo o mais velho teve a gentileza de explicar-me a mecânica da brincadeira.
- Sempre que a gente vê um Fusquinha, aponta e grita "ali um Fusquinha" e assim são marcados os pontos. Quem catar mais é o vencedor.
Achei a história meio bizarra, mas depois de conhecer o
túmulo do Juscelino, procurar Fusquinha poderia ser um programa mais
interessante. Não é que foi mesmo!
Localizar Fusquinha em Brasília é muito difícil. Em meio a tantos carrões, Mercedes, BMW e outros automotivos de pedigree, encontrar o dito-cujo é motivo de glória, com direito a aplausos e a disputa de quem viu primeiro.
E nessa farra, o tempo foi passando e quando demos conta, o passeio turístico tinha acabado de uma forma muito divertida.
Poucos dias depois voltei ao Rio de Janeiro e para quem conhece a cidade, sabe que por aqui tudo é longe. A geografia, que ao mesmo tempo distribuiu belezas naturais de ponta a ponta, faz com que seus moradores gastem muito tempo em deslocamentos internos. Um percurso da Zona Oeste à Zona Sul pode durar duas horas, mais do que a partida da decisão do Campeonato Estadual. E assim, numa saída com meu Golzinho 96, resolvi apresentar a nova brincadeira aos meus três filhos, para passar o tempo:
- Vamos catar Fusquinha?
Depois das devidas surpresas e explicações, nos pegamos procurando o bom velhinho pelas ruas do subúrbio carioca.
- Achei um. - gritou o do meio. Alguns minutos depois: – Achei outro e outro.
A primogênita achou mais uns seis e eu, mesmo com a atenção
no trânsito, achei tantos outros mais. O pequenininho não teve tanta sorte, pois
não soube distinguir carro algum.
Parecia que estava ocorrendo na cidade uma Convenção Nacional de Fusquinhas, tamanha a quantidade de carros dessa espécie nas ruas.
Parecia que estava ocorrendo na cidade uma Convenção Nacional de Fusquinhas, tamanha a quantidade de carros dessa espécie nas ruas.
Alguns dias depois resolvemos fazer uma pequena variação, já
que diferentemente de Brasília, a frota carioca está praticamente balzaquiana. E
como caminhões de lixo sempre chamaram a atenção do caçulinha, resolvi mudar a
brincadeira, para que o Pedrinho participasse. Expliquei, então:
- Agora é o seguinte: para cada caminhão de lixo, um ponto.
- Agora é o seguinte: para cada caminhão de lixo, um ponto.
Acreditei, ingenuamente, que como a cidade do Rio de Janeiro possui as ruas tão sujas, seria difícil achar os tais caminhões. Mais um engano! Esse nosso Prefeito pode até ser maluquinho, blogueiro, criador de factóides e o escambau a quatro, mas não podemos negar: o homem bota caminhão de lixo na rua! Eles circulam pela cidade com muita freqüência. Daí surgiu uma dúvida cruel:
- Por que então a cidade é tão suja, se a Comlurb está tão presente?!
Provavelmente você responderá: mas faltam garis. O que também
seria um engano: os laranjinhas estão em todos os lugares. Assim, mais uma vez,
a brincadeira voltou a não ter graça.
O desafio era tentarmos descobrir um item que fosse realmente difícil de localizarmos pelas ruas da cidade. Pensamos, pensamos e aí surgiu a brilhante idéia:
- Que tal carros de polícia? - Que sacada boa você teve! – respondi.
O desafio era tentarmos descobrir um item que fosse realmente difícil de localizarmos pelas ruas da cidade. Pensamos, pensamos e aí surgiu a brilhante idéia:
- Que tal carros de polícia? - Que sacada boa você teve! – respondi.
Como não moramos na Zona Sul, onde os carros de polícia são
vitrines para se dizer que o local é seguro e, também como não moramos na
favela, aonde a polícia já chega de roldão, encontrarmos uma dessas viaturas
pelas simpáticas ruas do subúrbio ia ser difícil. Todos toparam e a brincadeira
recomeçou.
Na ida, nada. Ninguém achou um carrinho sequer para contar história. Na volta, zero para todo mundo. E assim os dias foram passando e o grau de dificuldade era tanto que a brincadeira ficou chata e tivemos que mudá-la.
Revolvemos agora procurar nave espacial dourada com bolinhas vermelhas e azuis. No auge dos seus três anos, Pedrinho está adorando o novo jogo.
Sugiro a você brincar também. É muito mais fácil, divertido e seguro do que achar um carro de polícia.
- Ih! Olha uma nave aí no alto a sua esquerda. Ponto pra mim.
Alcione Koritzky
15/05/2007